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Ligo a TV e vejo imagens da cidade do Cairo, Egito, em chamas. Tanques de guerra obstruem as ruas, a multidão ataca e é duramente repreendida pelo exército local, civis são mortos e um corpo anônimo, e já sem vida, é carregado como mártir pela população enfurecida. Aeroportos são fechados, a internet é bloqueada e direitos humanos básicos são desrespeitados. Não posso acreditar nestas informações que são transmitidas em escala global, para a perplexidade de todos. Líderes mundiais manifestam seu repúdio, mas o ditador egípcio, no poder há trinta anos, não parece dar sinais de que irá recuar.

Há alguns meses estive naquele país, uma das nações mais antigas da humanidade, com mais de dez mil anos de existência. Evidentemente as pirâmides de Giza, a Esfinge e os muitos templos instalados às margens do Rio Nilo são de beleza incontestável e despertam profunda curiosidade sobre as técnicas de construção utilizadas em tempos tão remotos, mas, sem dúvida, a cultura local fortemente lapidada pela influência da religião islâmica exerceu sobre mim fascínio hipnótico.

Não por acaso Cairo é considerada a cidade mais barulhenta do planeta. Concentrando boa parte de toda a população egípcia, ela não para. A qualquer hora do dia ou da noite carros, ou os restos deles, circulam desordenadamente ao som de buzinas ensandecidas. Em meio a eles motos, riquixás, animais e pessoas se misturam disputando cada centímetro de espaço. A pobreza da maioria da população pode ser facilmente reconhecida em seus rostos de traços envelhecidos, nos trapos que muitos vestem e na desordem dos mercados que vendem tudo com mínimo ou nenhum grau de organização e asseio. As mulheres, obrigadas a se apresentarem em público sempre cobertas, usam as burcas pretas que transformam algumas multidões em massas homogêneas de corpos irreconhecíveis. Todo este cenário é emoldurado por uma poeira acinzentada que cobre a tudo e a todos, resultado da poluição, da carência de chuvas e da areia que chega com o vento vindo do Saara.

A despeito de toda esta situação, aquele povo de pele morena e de sorriso, muitas vezes, mal cuidado demonstra uma felicidade contagiante. As noites de quinta-feira, especialmente, revelam festas por todos os lados. Noivos desfilam pelas ruas neste dia e celebram a sua união. Amam cantar e dançar. Interagem. São curiosos sobre as coisas do “ocidente” que nunca tiveram a chance de conhecer. Mesmo o motorista da van que me levava, um ex-combatente de guerra, demonstra simpatia, amizade e sensibilidade comoventes.

Recordo-me especificamente da conversa com um guia turístico que me acompanhava à espera de um trem. Rapaz descolado, considerando os padrões locais, e ansioso por fazer muitas perguntas sobre a minha vida. Quando se sentiu mais confiante disparou o questionamento sobre namoradas. Achei engraçado e pensei que ele se referia a um relacionamento sério, noivado ou coisa parecida. Estava enganado, o que ele queria mesmo saber era se eu já tinha alguma vez na vida me relacionado com uma mulher, digo, beijado ao menos. Pergunta inesperada, segundo o nosso senso comum, para alguém na casa dos vinte e oito anos. Eis a revelação, ele nunca havia, se quer, conhecido o sabor de um beijo.

Esta conversa abriu um universo de revelações sobre a vida no Egito. A pobreza e a falta de emprego limitam as possibilidades de ascensão financeira. A religião impede que jovens se relacionem e descubram as belezas e prazeres do amor e também amadureçam ao terem que enfrentar as decepções terríveis que só os apaixonados podem sofrer. A liberdade de expressão não é um direito adquirido e respeitado. Algumas meninas mais ousadas, em sinal de protesto e inconformismo com a situação, começavam a usar calças Jeans e a deixarem uma pequena franja escapar à frente de suas testas, mas ainda eram “mal vistas” ao andarem pelas ruas. Lembro que a indústria no cinema iniciava um movimento político de discussão da censura ao exibir um beijo em suas produções locais. Cenas deste tipo não poderiam ser incluídas nos filmes e produções da televisão.

Lembro de tudo isto com tristeza, mas, por outro lado, ter conhecido esta realidade me ajuda a entender a revolta popular iniciada na semana passada. Tendo já conversado com muita gente com histórias de vida tão distintas, percebo que, na essência, a maioria das pessoas quer as mesmas coisas. Queremos a estabilidade de um lar, o acolhimento de uma família, a saúde de parentes, as risadas com os amigos, as dores e as delícias dos amores vividos ou somente desejados, a capacidade de descobrir coisas novas, de aprender, de ter uma ocupação digna, de “crescer na vida”, de ser reconhecido, se viver em paz e segurança enfim, de usufruir destas coisas que parecem tão óbvias, mas que ainda estão distantes de tantos, inclusive daqueles que materialmente as têm, mas que não dedicam tempo suficiente para valorizá-las como deveriam e agradecer pelo fato de tê-las.

A explosão de indignação do povo egípcio é um grito de basta. A demonstração clara de que nenhuma religião, política ou forma de opressão é capaz de calar os anseios mais básicos e nobres das pessoas. Muitas vezes não se rompe a clausura rapidamente, de forma indolor e sem vítimas, mas, como diz o ditado, não há mal que sempre dure. Um dia o desejo e a necessidade superam o medo e fazem brotar força e coragem para lutar.

Vendo as cenas de guerra civil nas ruas do Cairo percebo o valor das coisas simples para as pessoas e me recolho a pensar se estou efetivamente investindo o tempo necessário para cultivá-las em minha vida. Após algumas semanas de ausência no meu blog em virtude da correria do cotidiano, aproveitei este tema para parar um pouco, respirar, escrever estas linhas, exercer o meu direito de expressão e estar mais perto dos amigos, uma vez que, no final das contas, é isto que importa.

Como dizia a música: “A gente não quer só comida, a gente quer a vida, como a vida quer…”

Há alguns anos coordenei um trabalho social que tinha como objetivo abrir escolas de informática em comunidades carentes. A idéia não era ensinar computação como simplesmente uma técnica para operar equipamentos e utilizar a internet, mas, muito além, era resgatar a cidadania das pessoas ao inseri-las num contexto educacional mais amplo de forma a dar a elas a autoconfiança para buscar objetivos profissionais e pessoais importantes para suas vidas.

Um dos locais escolhidos para receber uma das escolas foi uma unidade prisional de regime semi-aberto, onde alguns reclusos começavam a voltar a ter contato com a sociedade em preparação para a sua reintegração definitiva após o cumprimento da pena. Por motivos óbvios, muitos dos voluntários que trabalhavam no projeto tiveram medo de se envolver com esta localidade específica e por isto resolvi assumir o papel de instrutor eu mesmo.

A primeira aula foi um desafio especial. A segurança na porta criava uma situação muito tensa para alguém não acostumado e/ou treinado a conviver em unidades prisionais, por isto decidi dispensar os guardas e encarar o grupo simplesmente como alunos, sem pensar demasiadamente no que aquelas pessoas tinham feito para terem chegado até ali. E este foi o acordo que fizemos, eles seriam tratados tão somente como alunos e não deveriam esperar de mim nenhuma atitude de advogado, juiz ou santo. Não estava ali para discutir processos criminais específicos, julgá-los ou conceder perdão ou salvo-conduto, mas simplesmente para proporcionar a construção de um ambiente saudável onde, com dedicação, todos aprenderiam muito, inclusive eu.

Um rapaz especialmente me chamou atenção. Ele era sempre ativo, participativo e dono de uma criatividade invejável. Tinha muita habilidade para trabalhos artesanais também. Fazia muitas perguntas e contribuía em todas as discussões até que um dia o percebi calado e com olhos marejados. Acabei a aula mais cedo para poder conversar com ele. Quando ficamos a sós, ele contou chorando o que o tinha levado à cadeia. Era um homem trabalhador até que um dia uma briga com um amigo numa mesa de sinuca de um boteco perto de casa causou a morte do oponente. O álcool havia sido o combustível decisivo para a tragédia. “Ele era meu amigo, professor. Eu não queria fazer aquilo, foi um acidente”. Verdade ou não, não estava ali para tirar minas conclusões, somente para ouvir.

A condenação veio e com ela a prisão. Anos de reclusão. Continuou então dizendo que havia tentado visitar mulher e o filho na última “saída” a que teve direito na semana anterior. Deveriam ser dias felizes com a família. Acontece que quando bateu à porta do que deveria ser a sua casa foi recepcionado por uma pessoa estranha. Ao perguntar sobre sua esposa, foi informado que ela havia vendido a casa e viajado com o filho e o namorado. “A minha casa caiu, professor!”. Ela vendeu o único bem que ele tinha e que havia sido conquistado com suor de anos de muito trabalho como enfermeiro em um grande hospital da região. Ela também sacou todas as suas economias que deveriam servir para ele começar a vida assim que fosse libertado.

“Professor, o que eu faço agora? – Sou negro, sem estudo, com ficha suja na polícia por homicídio e sem nada para recomeçar a vida. Além de tudo, sou um homem traído pela mulher que eu amava!”. Completou dizendo que a única coisa que restava seria continuar no crime para se sustentar e procurar incansavelmente a mulher que o havia roubado para se vingar dela. Sinceramente não tive condições de perguntar o que isto significaria. Conversamos muito e apelei para a discussão sobre a legalidade de algumas ações, uma vez que falar em certo e errado numa situação como esta seria, no mínimo, uma pretensão de minha parte.

Ele não voltou nas aulas seguintes e nunca mais recebi notícias deste rapaz.

Conto esta história nesta semana na qual assistimos a intensificação da guerra urbana no Rio porque, ao acompanhar os noticiários, portais de internet e muitos textos em blogs, ainda percebo que existe muito ideologismo e sinais explícitos de xenofobia em muitas discussões. Evidentemente não faltam também as teorias de conspiração, onde um grupo privilegiado estaria tomando decisões diabólicas durante a noite em salas escuras e reservadas e colocando em prática no dia seguinte os seus planos de dominação do mundo.

É óbvio que existem graves problemas no alto escalão da política e de muitas outras instituições públicas, como é o caso da própria polícia. É claro que existem os aproveitadores de plantão que criam as suas milícias e que usam o medo e o terror em benefício próprio. Conhecidos também são os chefes de quadrilha que, trancafiados nas celas dos presídios de segurança máxima, lêem sobre ciências sociais e guerrilhas e colocam em prática a sua nova visão sobre a realidade da vida através de bilhetes e ligações de celular clandestinas. Não preciso investir palavras para dizer que tudo isto precisa ser incansavelmente combatido.

Acontece que, por outro lado, existem também coisas simples do nosso comportamento cotidiano que contribuem para a criação desta realidade e para as quais temos que prestar muita atenção. Quantos de nós, defensores incondicionais dos direitos humanos e da igualdade social, estariam dispostos a empregar um ex-detento em nossas casas e empresas? Quantos de nós comprariam numa loja de grife em um shopping famoso na qual pessoas sem o fenótipo padrão de “boa aparência” estivessem a nos servir? Quantos de nós estariam dispostos a discutir com os imbecis que ainda resumem a violência à existência de negros e nordestinos? Enfim, a lista de “quantos de nós…..?” é extensa. As pequenas exclusões do dia-a-dia geram lacunas crescentes na sociedade. Como nas relações sociais não existe vácuo, um espaço deixado vazio pela família será ocupado por “amigos”, bons ou ruins. O hiato deixado pela educação será ocupado por espertos que manipulam as pessoas menos esclarecidas. A falta de oportunidade de ganho honesto gera, em muitos casos, a atração pelo crime e por seus prazeres imediatos de poder, dinheiro e reconhecimento. A ausência do estado e da legalidade permite o crescimento das células malignas do poder paralelo. O “vício inocente” dos consumidores cria terreno fértil para o mercado perverso dos fornecedores de drogas.

O fato então é que, teorias e ideologias à parte, vivemos as conseqüências de uma fusão complexa de muitos fatores. A existência de uma causa única seria ótima para validar a aparição de um novo Messias que poderia resolver o problema com um passe de mágica ou com uma única invasão de favela, mas não é assim. A mudança desta realidade exigirá trabalho duro, persistência, união e engajamento de todos os segmentos da sociedade. Ninguém pode se eximir de sua responsabilidade. Por isto, em meio a toda a tristeza e destruição vistas ao longo dos últimos dias, prefiro olhar para os sinais positivos de mudança. Olho para as diferentes polícias e distintas Forças Armadas deixando de lado vaidades individuais e se unindo em um objetivo único. Alegro-me ao ver as pessoas comuns vencendo a lei do silêncio e ligando para o Disque Denúncia para dar informações importantes e deixando clara a mensagem de que não suportam mais o estado das coisas. Emociono-me vendo imagens de lençóis, camisetas, tolhas e qualquer tipo de trapo branco pendendo em janelas como que em um grito de desabafo a tanto tempo sufocado. Precisamos devolver para as gerações futuras o prazer de correr livremente pelas ruas brincando de polícia e ladrão sabendo claramente qual é o lado correto da lei.

Existe um ditado oriental que diz que “não é possível abrir a janela para entrar ar fresco e impedir que entrem também as moscas”. Em outras palavras, neste caso, resgatar a sensação de legalidade tem um preço. As invasões começadas esta semana também aterrorizaram, feriram e possivelmente vitimaram cidadãos de bem. Não acredito que haja ninguém feliz com isto. Entretanto, como o confronto é inevitável na situação na qual nos encontramos, resta-nos apoiar as forças de segurança e rezar para que este momento crítico passe logo e que as pessoas possam retornar em paz aos seus lares. Este texto é a minha forma de me associar a esta corrente de pensamentos positivos.

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